Na ausência de Bolsonaro, governo monta frentes estratégicas no Planalto

Brasília – A internação prolongada do presidente Jair Bolsonaro faz com que o Planalto atue em duas frentes para manter a atuação do governo. Auxiliares diretos do chefe do Executivo tentam isolar discussões sobre questões morais que podem atrapalhar no convencimento dos pacotes ministeriais de Sérgio Moro e Paulo Guedes. Correndo o risco de ver o protagonismo do Planalto nas mãos do vice, o general Hamilton Mourão, há quem defenda a atuação dele para mostrar a afinidade da chapa eleita em outubro por 57 milhões de brasileiros.

A Secretaria-Geral da Presidência da República e a secretaria de governo buscam maneiras de resistir a eventual enfraquecimento do governo sem a presença de Bolsonaro. Na secretaria-geral, evitar que os ministros aproveitem a ausência do presidente para comentar assuntos que não lhes competem é a primeira iniciativa. Controvérsias em excesso podem desqualificar as medidas anticorrupção propostas pelo Ministério da Justiça e a reforma da Previdência idealizada pela pasta da Economia.
Na secretaria de governo, há um empenho para apoiar o vice, o general Hamilton Mourão, que busca proeminência na gestão. O militar esperava amealhar algumas funções do Planalto, mas ficou sem atribuições oficiais, aparando arestas enquanto Bolsonaro se recupera de uma cirurgia em São Paulo. “Não é o primeiro vice-presidente problema do Brasil. Na época de Itamar (Franco), foi assim. O vice tem função garantida pelo voto. Não é como um ministro, substituível. Mas o general (Mourão) está frustrado pela falta de papel no governo”, detalha integrante da secretaria-geral.
Sob o comando do general Carlos Alberto dos Santos Cruz, a secretaria de governo, porém, tem ideias mais alinhadas com Mourão. Na pasta, o trabalho do vice nos bastidores é tratado como um trunfo que independe da chancela de Bolsonaro. Na ausência do presidente, o general Mourão tem se reunido com empresários e investidores de países europeus e asiáticos. “Uma ótima forma de encontrar o que fazer”, garante um dos assessores da secretaria de governo.
O fato é que o Planalto resiste ao nome de Mourão na Presidência. O vice assumiu o comando do governo durante a operação de Bolsonaro, mas, agora, a atividade oficial é coordenar as reuniões ministeriais, às terças. Hamilton Mourão chegou a ficar 48h como presidente da República, mas, ainda que Bolsonaro continue hospitalizado, não deverá retornar ao posto. “Bolsonaro não está afastado. Ele continua governando. Tem despachado no hospital”, lembra um dos conselheiros palacianos.
Com Bolsonaro internado, os pacotes desenvolvidos pelos ministros da Justiça, Sérgio Moro, e da Economia, Paulo Guedes, acabam sofrendo com um governo sem comando. Guedes tem conversado com a equipe sobre novos planos para a pasta. Um deles é desvincular o Orçamento da União para evitar a dependência financeira do Planalto. Técnicos do ministério foram incumbidos de organizar um planejamento que seria proposto ao Congresso por meio de Proposta de Emenda Constitucional (PEC).
A ideia é atribuir ao Congresso as funções de controlar o Orçamento e estabelecer as prioridades na alocação de receitas dos impostos. Hoje, cerca de 96% dos fundos da União têm receitas veiculadas por lei a despesas predeterminadas. Como a iniciativa traz poder a deputados e senadores, deverá ter apoio dos parlamentares.

Pacotes

A recuperação do presidente Bolsonaro, que já está no 13º dia no hospital, é fundamental já que os superministros têm desenvolvido as propostas de mudança na previdência e nas leis anticorrupção. A intenção é de que o presidente aprove diretamente as ideias para, só assim, os pacotes serem analisados pelo Congresso.
Segundo o cientista político e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) Homero de Oliveira, é necessário que a relação com os partidos, descontentes com a composição ministerial, seja apaziguada. “Ele (Bolsonaro) prometeu e compriu. Terá de recuperar não só a saúde, mas as articulações com o Congresso e com os partidos”, avalia.
O líder do PSL na Câmara, delegado Waldir, não crê que a recuperação do presidente chegue a atrapalhar as atividades no Congresso. Ele entende que o chefe do Executivo conseguirá “passar as ordens” do hospital. “O presidente tem outras funções, não a de articulador. Cada ministro tem uma procuração em sua respectiva área. Hoje, Onyx Lorenzoni tem uma procuração e seu papel é justamente a de fazer a articulação”, defende. (Correio Braziliense)

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