Sete anos de luto: conheça a história de sobreviventes e de mãe de uma das vítimas do incêndio na Kiss

Carina Correa e a filha vítima da tragédia da Kiss, Thanise Garcia (Foto: Arquivo pessoal)

Nesta segunda-feira, dia 27, se completa sete anos de uma das maiores tragédias brasileiras, que ocorreu em janeiro de 2013, em Santa Maria (RS), e resultou na morte de 242 jovens.

A Boate Kiss pegou fogo por volta das 2h30 da manhã, quando um dos integrantes da banda ‘Gurizada Fandangueira’ acendeu um sinalizador dentro do local onde acontecia a festa ‘Agromerados’, organizada por um grupo de estudantes.

Devido à fumaça tóxica que soltou das espumas do teto da Boate, mais de 200 pessoas morreram asfixiadas. As más condições de segurança do local também contribuíram para o sinistro. Mais de 600 pessoas ficaram feridas, guardando na pele as cicatrizes de queimaduras graves daquele desastre.

As famílias das vítimas lutam até os dias de hoje, para conseguirem justiça pela morte dos conhecidos. Uma página no Facebook e no Instagram, chamada de “Kiss: que não se repita”, foi criada por André Polga, para servir de apoio aos familiares. O André perdeu duas amigas na Boate naquela noite e, desde então, acompanha as famílias.

“A rede foi criada devido ao fato da população distorcer fatos e acontecimentos realizados pelos familiares, tais como protestos e solicitações de leis mais rígidas para segurança de locais públicos. Os pais eram, na época, acusados de “não deixar Santa Maria se desenvolver” e que a Kiss assombrava a todos. Através da Página e hoje, do Instagram, tentamos mostrar uma perspectiva diferente, abordando o viés e a visão dessas pessoas que lutam, para que as pessoas e a sociedade entendam que a luta é para que mais tragédias como essa não aconteçam”, explicou o criador da página.

Oeste Mais ouviu alguns dos sobreviventes e a mãe de uma das vítimas da tragédia, que relataram o dia que tiveram naquele domingo, 27 de janeiro, e como tudo aconteceu.

Relato de uma mãe:

Thanise Correa Garcia, 18 anos – vítima

Carina Correa estava de plantão em um hospital de Santa Maria, onde trabalhava na área de nutrição, naquela madrugada de domingo. A mãe de Thanise recebeu uma ligação da filha por volta da 1h30 da manhã, informando que a jovem estava cansada, mas que continuaria na festa por causa do amigo Igor Stefhan de Oliveira – também vítima do incêndio.

Thanise, conhecida como Di, estava na Boate junto de amigos e todos comemoravam o aniversário de Igor. A jovem estudante de filosofia parecia cansada durante a ligação à mãe, mas isso não preocupou Carine, nem quando recebeu a notícia de que o local onde a filha estava havia pegado fogo.

“Minha outra filha, que tinha treze anos na época, me ligou e me disse: ‘mãe, a Kiss pegou fogo, ninguém tá encontrando a Thanise, é horrível, mãe’ eu disse pra ela que iria resolver e que era pra ela ficar calma, e até então eu totalmente tranquila”, conta Carina, que disse estar sem nenhuma preocupação, mesmo depois da filha mais nova ter contato que viu Thanise já sem vida.

“Quando eu saí da escada da porta que corta incêndio do hospital, eu reparei que o Pronto Atendimento era uma cena de guerra, eu nunca vou esquecer, porque eu tenho imagens daquela época, eram muitos jovens, os enfermeiros estavam apavorados”, relembra a mãe que procurou a filha de leito em leito no hospital.

Carina procurou Thanise por todos os cantos, mas não a encontrou. Quando já estava amanhecendo, a mãe voltou para casa para esperar por uma ligação da filha, e foi aí que o desespero começou.

“’Mãe, não me procura mais, porque eu tô bem’, eu ouvi isso dentro do meu coração. Quando ela me disse isso, eu senti paz, mas entrei em desespero, porque sabia que eu não ia mais ver a minha filha”, relembra Carina emocionada.

Velório sem flores

Os corpos de todas as vítimas foram colocados dentro do Centro Desportivo Farrezão, de Santa Maria, para começar o reconhecimento. Carina conta que não viu a filha nesse período e que somente teve o último contato com ela quando a menina já estava dentro do caixão, no CTG do bairro onde ela reside, cedido para o funeral da menina, já que não existiam mais lugares disponíveis na cidade.

“Uma coisa que dói muito é que a minha filha não tinha flores, porque não havia mais flores na cidade. Uma vizinha muito idosa, que cuidava muito de flores na casa dela, juntou todas, cortou todas e colocou em cima do caixão, porque eram as únicas que a gente tinha”.

Thanise foi enterrada com uma camiseta que havia comprado naquela semana. Toda branca e com escritas em vermelho, a peça de roupa da banda de rock Beatles, favorita da menina, combinava com as unhas dela que estavam pintadas de vermelho.

Gustavo Cadore sofreu queimaduras graves nos braços, peito e costas (Foto: Derli Soares Jr)

Relato de um sobrevivente:

Gustavo Cadore, 38 anos

Gustavo é morador de Santa Maria e foi parar na festa ‘Agromerados’ com um amigo chamado Arthur, por acaso, naquela noite. Arthur tinha dois ingressos para a festa, mas Gustavo na gostava muito de frequentar aquele lugar. Um dos motivos era já ter ido à Boate uma semana antes do incêndio.

“Nossa ideia inicial era entrar em outra boate, mas a fila nessa outra estava enorme, aí decidimos dar uma volta e ver como estava a Kiss”, relembra Gustavo, que via uma fila pequena, por volta das 1h30 da manhã, na frente da Kiss, decidindo então entrar na companhia do amigo.

O rapaz disse que a casa estava completamente cheia e que jamais tinha estado em um lugar tão lotado assim antes. Os dois amigos, assim que entraram na festa, encontraram dois conhecidos por lá e iniciaram uma conversa por cerca de dez minutos.

Gustavo não estava contente com a falta de espaço, então procurou pela área vip da festa. Após 15 minutos estando lá, o incêndio começou. Na visão dele, a área de fogo era aparentemente controlável, porém, o extintor falhou e as pessoas começaram a entrar em pânico.

Gustavo até o momento estava calmo com a situação e esperava pelo amigo que estava no banheiro. “Meu medo inicial era cair e ser pisoteado na tentativa de sair da boate. Esperei ele [amigo] voltar, até para que não ficasse me procurando lá dentro e a gente não conseguir sair, quando eu iria atrás dele, ele voltou. Lembro que falei: ‘vamos sair que vai incendiar a boate e não tem ninguém pra apagar o fogo’. Saímos meio juntos da área vip, porém logo que saímos do reservado, o empurra-empurra estava muito grande”, relembra ele.

Logo após a tentativa de sair da Kiss, ambos caíram no chão e Gustavo perdeu o amigo Arthur de vista. Cadore começou a ser pisoteado pelas pessoas que também estavam tentando sair.

“Estava impossível respirar, tava muito quente e tinha muita fumaça, aí me dei conta que a situação era muito grave e que certamente teria óbitos lá dentro. Só pensava em me manter calmo e o menos ofegante possível, porque respirar era impossível”, conta.

Gustavo não tinha mais forças para continuar procurando por uma saída e foi quando pensou que iria morrer. “Pedi desculpas para minha mãe e meu pai, porque iria falhar e morreria ali. Pedi a Deus que me ajudasse a sair e foi quando olhei pro lado e vi uma luz, que era da porta ao lado, tinha muitas pessoas entaladas na porta”.

O rapaz reuniu forças e empurrou junto com ele todas as pessoas que conseguiu, para fora da Boate. Arthur, o amigo de Gustavo, também conseguiu sair dali junto de muitas pessoas que encontraram forças de onde não tinham para salvar suas próprias vidas.

“Os meus conhecidos que encontrei no início não tiveram a mesma sorte e acabaram falecendo no interior da boate”, diz Gustavo.

Ferimentos e cicatrizes

O rapaz, que era doutorando em Veterinária naquela época, saiu desnorteado andando pelas ruas depois de conseguir sair da Boate já em chamas. Quando passou por um desconhecido, foi avisado de que os braços estavam queimados e que a pele estava caindo.

Gustavo então, próximo de um poste de luz, conseguiu perceber que a pele estava mesmo presa apenas pelo pulso e que o estado dele era mais grave do que ele pensava.

Hoje, Gustavo leva as marcas daquele domingo nos braços, costas e no peito. O rapaz precisou passar por pelo menos oito procedimentos cirúrgicos de implantação de pele para resolver o problema, mas isso não apaga nem o começo do que ele passou naquela madrugada.

Kelen tinha 19 anos na época e sofreu queimaduras de 3º grau nos braços e precisou amputar a perna direita (Foto: Arquivo pessoal)

Relato de uma sobrevivente:

Kelen Ferreira, 26 anos

A jovem que reside em Pelotas (RS) também foi uma das vítimas sobreviventes da Kiss. Ela foi à festa junto de duas amigas, a Juliana e a Laureane, naquele dia 27 de janeiro.  Kelen relata que não estava disposta para ir à Boate nela noite e que a decisão partiu das amigas com quem ela estava. As três jovens também se encontrariam com uma quarta amiga que trabalhava na Kiss, naquela madrugada.

Minutos antes de começar a confusão, as duas amigas de Kelen se ausentaram para ir ao banheiro e jovem formada em Terapia Ocupacional imaginou que aquele tumulto se formando em sua frente acontecia devido a uma briga.

Na demora das amigas, a jovem começou a andar em direção à porta da boate, tentando entender o que estava acontecendo e foi aí que ela se deu conta de que o local estava pegando fogo.

“Eu sentia meus braços queimando e estava muito ruim para respirar. Quando me aproximei da porta, me tiraram para fora, foi nisso um dos guris que estava próximo da gente, me viu e me levou para o hospital”, relembra ela, que foi uma das primeiras pessoas a dar entrada no Hospital Caridade.

Kelen sofreu muito com a fumaça tóxica que exalava no local e, devido a isso, precisou ser intubada às 4h30 da manhã, momento esse em que ela entrou em coma.

Resultado da tragédia

Dos 78 dias em que Kelen ficou hospitalizada, 14 foram do coma dela. A jovem teve 18% do corpo queimado, apresentando queimaduras de 2º e 3º grau, onde precisou fazer enxerto de pele para corrigir o estrago causado pelo fogo daquela noite.

Ela também sofreu e sofre até os dias de hoje com problemas respiratórios e faz tratamento e toma remédios para tentar voltar ao normal. “Já tinha noção do que havia acontecido quando eu saí lá de dentro da Boate. Eu tinha me queimado eu sentia a dores nos braços. Logo depois, no coma todo, eu tive sonhos, e quando acordei, eu vi que meus braços estavam todos enfaixados até no ombro”, relata.

Kelen pediu para que os funcionários do hospital colocassem uma televisão na CTI (Unidade de Terapia Intensiva) onde ela estava, para que ela pudesse saber da dimensão do acontecido.

Além de todos esses problemas que ela sofreu devido ao incidente, a jovem também precisou amputar a perna direita devido aos ferimentos.

“Quando eu saí da boate eu tirei a sandália do pé esquerdo e quando fui tirar a outra, o Gustavo me tirou para fora. Nisso, a sandália acabou estrangulando o meu tornozelo e faltou circulação e começou a escurecer o meu pé”.

A amputação aconteceu no dia 5 de fevereiro, dias após o incêndio na Kiss. A jovem ainda estava em coma, mas relata que, mesmo dormindo, ouvia os médicos falando sobre o que estavam prestes a fazer.

“No início foi muito difícil e eu só chorava por causa disso, porque na época eu só tinha 19 anos”. A perna direita da jovem existe até dez centímetros abaixo do joelho, porque boa parte da panturrilha já estava comprometida.

A morte das amigas

Juliana e Laureane, as amigas de Kelen, não tiveram a mesma sorte e acabaram morrendo no interior de Boate. Não se sabe ao certo se as meninas ficaram no banheiro, onde boa parte das vítimas foi encontrada, ou se elas já estavam tentando sair daquela confusão.

Kelen Ferreira só recebeu a notícia sobre a morte das companheiras em março daquele ano, “Depois, quando me contaram das minhas amigas, eu me culpei durante muito tempo por elas terem morrido e eu não ter feito nada para ajudar”, comenta a jovem, emocionada.

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