A indústria siderúrgica brasileira está em alerta máximo. Em meio a um cenário de forte concorrência internacional, a Gerdau — uma das maiores produtoras de aço do país — anunciou o corte de 1.500 postos de trabalho entre janeiro e julho de 2025. A decisão, segundo o CEO Gustavo Werneck, está diretamente relacionada ao crescimento acelerado das importações de aço, sobretudo da China, e à ausência de políticas de defesa comercial por parte do governo federal. Em entrevista à Gazeta do Povo, Werneck classificou o momento como insustentável e alertou que, caso não haja reação imediata, novas demissões e até paralisações de usinas poderão ocorrer já nos próximos meses.
A situação se agravou com a decisão da empresa de suspender seus investimentos previstos para o Brasil a partir de 2026. Em contrapartida, o grupo mantém investimentos robustos nos Estados Unidos, onde afirma encontrar ambiente regulatório estável e protecionismo efetivo contra práticas de dumping. Em 2024, por exemplo, a Gerdau destinou mais de US$ 500 milhões para modernização e expansão de unidades no Texas e em Indiana, enquanto no Brasil operam fábricas abaixo de 50% da capacidade instalada.
A denúncia feita por Werneck não está isolada. Outras empresas do setor, como Usiminas e ArcelorMittal, vêm enfrentando o mesmo cenário de saturação do mercado interno. De acordo com dados da Aço Brasil, as importações de aço cresceram 48,2% em 2024, alcançando participação de mais de 20% no mercado nacional — patamar que historicamente sinaliza risco de colapso para a indústria local. A principal origem dos produtos é a China, onde o aço é subsidiado pelo governo, permitindo que chegue ao Brasil com preços até 30% mais baixos que o custo nacional.
As críticas também se estendem à lentidão da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), acusada pelo setor de demorar excessivamente para aplicar medidas antidumping ou salvaguardas. Enquanto o governo analisa tecnicamente os pedidos, fábricas operam em marcha lenta e trabalhadores perdem seus empregos. Segundo o presidente do Instituto Aço Brasil, Marco Polo de Mello Lopes, “a indústria nacional está sendo sacrificada sob o pretexto de abertura de mercado, enquanto países concorrentes fazem exatamente o contrário”.
Em paralelo, outros segmentos industriais igualmente sensíveis à concorrência internacional seguem encolhendo. A indústria calçadista já contabiliza mais de 6 mil demissões em 2025. No setor de máquinas e equipamentos, a retração da produção é estimada em 12% no acumulado do ano. Um efeito dominó que reforça a percepção de que a economia brasileira se desindustrializa sem um plano nacional que priorize a produção local.
O governo, por meio do vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Geraldo Alckmin, reconheceu o problema, mas tem insistido na necessidade de estudos técnicos antes de tomar qualquer decisão. Em entrevista ao Poder360, Alckmin afirmou que novas medidas podem ser anunciadas “nos próximos meses”, mas o setor privado questiona se haverá tempo hábil para evitar um colapso estrutural. A crítica se intensifica diante da disparidade de ações entre o Brasil e países como México e Estados Unidos, que já adotaram barreiras tarifárias contra o aço chinês desde 2023.
A decisão da Gerdau de cortar empregos e suspender investimentos escancara uma realidade cada vez mais frequente: multinacionais que preferem investir fora do Brasil, mesmo sendo empresas originalmente nacionais. A mensagem é direta: sem segurança jurídica e proteção comercial mínima, não há como competir. Resta saber até onde o governo resistirá à pressão ou se a omissão custará mais do que postos de trabalho — talvez custe parte essencial da estrutura produtiva nacional. (Valor Econômico)




