A possibilidade de um “super” El Niño na segunda metade de 2026 já acende um alerta para a agricultura, incluindo Santa Catarina. O fenômeno, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, altera o regime de chuvas em diferentes regiões do país e pode afetar a produção de alimentos, com reflexos nos preços ao consumidor.
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) avalia que o El Niño tem 81% de chances de atingir a categoria “super” ainda em 2026, e pode ser o El Niño mais intenso desde 1950, quando começaram as medições do fenômeno, segundo atualização da última quinta-feira (9).
No Brasil, segundo um boletim publicado pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) em 29 de junho alerta que a tendência é de chuvas acima da média na Região Sul e precipitações abaixo da média em parte do Norte e do Nordeste.
Segundo o instituto, a pecuária deve ser uma das atividades mais afetadas no Centro-Oeste e no Norte pela redução da disponibilidade de água para as pastagens. Já no Sul, o excesso de chuva pode favorecer culturas de inverno, mas também aumenta o risco de doenças e perdas em lavouras.
- Sul: chuvas acima da média tendem a favorecer as culturas de inverno, mas o excesso de umidade pode elevar a incidência de doenças fúngicas. Em contrapartida, a maior nebulosidade e as temperaturas mais elevadas reduzem o risco de geadas tardias.
- Sudeste: chuvas próximas da média devem beneficiar as culturas de inverno. Para o café, o cenário é favorável à colheita e à florada, desde que as chuvas retornem após o período seco. As temperaturas mais altas, porém, aumentam o risco de doenças nas lavouras.
- Norte: chuvas abaixo da média e calor acima do normal aumentam o risco de seca, com possíveis prejuízos às pastagens, culturas perenes e à agricultura familiar.
- Nordeste: menor volume de chuvas pode favorecer a colheita do feijão de terceira safra em áreas mais adiantadas, mas comprometer lavouras em desenvolvimento e reduzir a disponibilidade de água para a pecuária.
- Centro-Oeste: condições favorecem a colheita do milho de segunda safra, algodão e cana-de-açúcar. No entanto, o calor pode intensificar a deficiência hídrica no fim da estação seca, afetando pastagens e a preparação da próxima safra.
Preço dos alimentos pode aumentar com El Niño
Para o pesquisador do Insper Agro Global, Leandro Gilio, ouvido pelo g1, parte desses efeitos pode chegar ao bolso do consumidor.
— Certamente vai impactar preço dos alimentos. É meio que inevitável, principalmente se afetar as janelas de plantio ou mesmo prejudicar a produção na hora da colheita — afirmou.
O que muda em Santa Catarina
Em Santa Catarina, a Epagri prevê um inverno com chuvas frequentes, elevada umidade e temperaturas amenas, cenário que exige maior atenção principalmente nas culturas de inverno e, especificamente, olerícolas (hortaliças).
Entre as olerícolas, alho e cebola tendem a ser as culturas mais impactadas, pois podem sofrer com encharcamento do solo, doenças bacterianas e dificuldades nas operações de campo. No caso da cebola, o excesso de chuva também pode deixar o produto mais aquoso, reduzindo sua capacidade de armazenamento, conforme a Epagri.
Entre os grãos de inverno, trigo, aveia e cevada também exigem atenção. O trigo pode registrar maior incidência de doenças e dificuldades no manejo durante fases importantes do desenvolvimento. Já a aveia pode ser beneficiada pela umidade no início do ciclo, desde que não ocorram períodos prolongados de encharcamento.
SC já prevê redução em algumas culturas
As estimativas iniciais da Epagri/Cepa, divulgadas em 12 de junho, indicam redução na produção de algumas culturas de inverno. Entre os destaques estão:
- Alho: A área plantada deve cair 13%, para 647 hectares, e a produção recuar 17%, para 7,3 mil toneladas. A região de Curitibanos segue como principal polo produtor, com destaque para Fraiburgo e Frei Rogério, que concentram 52% da área cultivada.
- Cebola: A área cultivada deve diminuir 9%, para 17,4 mil hectares, e a produção cair 9%, para 576,4 mil toneladas, após preços abaixo do custo de produção no início de 2026. A região de Ituporanga segue como principal polo produtor, concentrando 46% da área cultivada no Estado.
- Trigo: A estimativa é de redução de cerca de 27% na área plantada e de 29% na produção, que deve ficar em 271 mil toneladas. A produtividade média também deve recuar 2,8%.
- Aveia-grão: A produção deve crescer 12,8%, para cerca de 60 mil toneladas, acompanhando o aumento de 12,3% na área cultivada, impulsionado principalmente por novas áreas na Serra.
- Cevada: A cultura deve registrar aumento de 13,6% na área plantada, para 500 hectares, e alta de 3,8% na produção, estimada em cerca de 2 mil toneladas, mantendo participação ainda pequena no Estado.
Como os agricultores de SC podem se preparar?
O presidente da Epagri, Dirceu Leite, afirma que a instituição está mobilizada para apoiar os agricultores catarinenses diante dos desafios que podem afetar as safras, com equipes de pesquisa e extensão acompanhando as condições de clima e solo, emitindo orientações, alertas e reforçando práticas de conservação, como o plantio direto e o terraceamento.
— Orientamos aos produtores a acompanharem os avisos e boletins da Epagri e a procurarem o escritório mais próximo do município. Com informação, planejamento e trabalho conjunto, vamos enfrentar mais este desafio climático e buscar uma boa safra para Santa Catarina — recomenda Leite. (NSC)






