Há regiões do Brasil em que a tendência de temperaturas máximas já está até 3°C acima do que era registrado na década de 1960, aponta uma análise do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) divulgada nesta semana.
O trabalho compara a tendência de temperaturas máximas registrada na década de 1960 com a tendência de máximas no período 2010-2020.
Regiões do Norte e Nordeste apresentam uma concentração elevada de áreas com significativo crescimento da tendência de temperatura máxima.
Em 2022, novamente a Communications Earth & Environment publicou um estudo que mostrava que áreas tropicais e subtropicais, o Brasil entre elas, podem vivenciar temperaturas consideradas “perigosas” para a saúde humana pela maior parte do ano, com o avanço da crise do clima no século 21.
Por fim, recentemente, a partir de simulações em computador, a Nasa traçou como o planeta ficará com um aumento de 2°C na média da temperatura terrestre –em comparação à média de temperatura do período pré-industrial (1850-1900).
Entre as regiões mais afetadas do mundo aparecem o Norte e o Centro-Oeste brasileiros, com possibilidade de diminuições de chuva, perda da umidade relativa do ar e avanço do chamado “fire weather” (basicamente, risco de grandes incêndios).
A diferença é que tais estudos olham para o futuro, ressalta Lincoln Alves, climatologista do Inpe. “Não estamos falando de futuro [na análise], estamos falando de presente. As projeções já estão se confirmando antes do que era projetado”, diz o pesquisador sobre o relatório que liderou.
Partes do Centro-Oeste, inclusive porções do Pantanal, constam no mapa criado pelo Inpe como áreas que tiveram aumento considerável na tendência de temperaturas máximas.
O Acordo de Paris aponta que o mundo deve buscar limitar o aumento de temperatura média global a 2°C, em comparação à média de temperatura do período pré-industrial, mas, preferencialmente, ficando o aumento limitado a até 1,5°C. Atualmente, no mundo, a temperatura já aumentou 1,1°C.
Pode parecer quase nada, mas esses poucos graus Celsius de temperatura fazem uma grande diferença. O mês passado foi o julho mais quente já registrado na história.
De toda forma, vale destacar que não é só a mudança climática global que explica os dados observados na análise do Inpe. O contexto regional também influencia, como processos de urbanização –que se intensificaram na segunda metade do século 20–, e mudança do uso do solo, ou seja, desmatamento, que, além de ser a maior fonte de emissões de gases-estufa do país, impacta o comportamento climático local.
Impactos
O aumento de temperatura decorrente, inequivocamente, da atividade humana –especialmente as emissões de gases-estufa–, não termina em si mesmo. Há diversos problemas sociais, de saúde, ambientais e econômicos envolvidos.
O calor mais intenso pode ainda colocar em risco os sistemas de saúde, com pacientes sofrendo com o estresse térmico e possíveis problemas de infraestrutura relacionados às temperaturas elevadas.
Em junho deste ano, regiões da Índia viveram situação do tipo, com elevado número de mortes ocorrendo e sendo conectados a altíssimas temperaturas, que ultrapassaram os 40°C e com a umidade do ar acima de 50%. Ao mesmo tempo, as autoridades disseram que investigariam as mortes, mas não fizeram conexão direta com o calor massacrante.
Deve-se levar em conta, ainda, os impactos na força de trabalho e na economia. Um estudo recente, por exemplo, aponta que, já na próxima década, um fracasso global em reduzir emissões poderá resultar em um rebaixamento em notas de crédito soberano, o que pode levar ao aumento de custos da dívida em dezenas de países.





