Corregedoria da BM investiga participação de policiais em situação semelhante à escravidão no RS

Política

A Corregedoria da Brigada Militar confirmou, nesta terça-feira (28), que investiga a possível participação de policiais militares nas violências sofridas por trabalhadores encontrados em situação semelhante à escravidão em Bento Gonçalves, na Serra do Rio Grande do Sul.

“Ao tomar conhecimento dos fatos nesta segunda-feira (27), a Corregedoria da Brigada Militar solicitou à Polícia Federal cópia dos inquéritos para abrir uma investigação sobre o caso”, diz a BM.

Trabalhadores ficaram em ginásio de Bento Gonçalves — Foto: Divulgação/MPT

Trabalhadores ficaram em ginásio de Bento Gonçalves — Foto: Divulgação/MPT

Através das redes sociais, o governador do RS Eduardo Leite também confirmou a investigação e disse que deve fazer uma reunião com secretários para avaliar ações em relação ao crime.

“Colocamos a Corregedoria da Brigada Militar à disposição para apurar eventual participação de policiais em atos de coação aos trabalhadores explorados na serra gaúcha. Também solicitamos o compartilhamento de provas entre a PF e a corregedoria da Brigada. Convoquei para logo mais uma reunião com secretários para tratar de novas ações em relação a este crime absurdo e lamentável”, destaca.

O repórter do jornal Zero Hora Humberto Trezzi teve acesso ao depoimento de trabalhadores resgatados. Em pelo menos um deles, que o g1 analisou, um homem relata ter sofrido ameaças ou algum tipo de violência por pessoas que se diziam policiais.

“Presenciou o Júlio Cesar, Jollo Vitor e Erick serem agredidos no alojamento pelo segurança, não sabe o nome, Kiko (gerente) e Escorsese (estava armado, o depoente diz que é policial)”, diz um dos trechos.

Outro homem também fala do suposto “segurança” quando perguntado sobre se foi agredido no alojamento, mas não diz se o homem era um policial.

“[…] Após o trabalho, com uma cadeira de ferro no alojamento pelo segurança, não sabe o nome, com ameaças de morte, pois um colega tinha divulgado um vídeo onde apareciam molhados no trabalho.”

Situação de escravidão: espaço onde ficavam trabalhadores em Bento Gonçalves — Foto: Polícia Rodoviária Federal/Divulgação

Situação de escravidão: espaço onde ficavam trabalhadores em Bento Gonçalves — Foto: Polícia Rodoviária Federal/Divulgação

O caso

A Polícia Rodoviária Federal (PRF) resgatou, na última quarta-feira (22), 207 trabalhadores em situação análoga à escravidão em Bento Gonçalves. O alojamento ficava no Bairro Borgo, a cerca de 15 km dos vinhedos do município.

A operação foi realizada pela PRF, pelo MTE e pela Polícia Federal (PF) após três trabalhadores procurarem a PRF em Caxias do Sul dizendo que tinham fugido de um alojamento em que eram mantidos contra sua vontade. No local, os trabalhadores foram encontrados “em situação degradante”.

A maioria dos trabalhadores teria vindo da Bahia para trabalhar na colheita da uva, com promessas de salários superiores a R$ 3 mil, além de acomodação e alimentação.

No entanto, eles contaram ao MTE que eram obrigados a trabalhar diariamente das 5h às 20h, sem pausas, e com folgas apenas aos sábados — embora fossem forçados a assinar no ponto que folgavam também aos domingos.

Eles ainda disseram que representantes da empresa contratante ofereciam a eles comida estragada, que só podiam comprar produtos em um mercadinho perto do alojamento, com preços superfaturados, e que o valor gasto era descontado do salário, o que fazia com que os trabalhadores acabassem o mês devendo, pois o consumo superava o valor da remuneração.

Afirmaram, ainda, que eram impedidos de sair do local e que, se quisessem sair, teriam que pagar a suposta “dívida”. Também, que os empregadores ameaçavam seus familiares. Os trabalhadores também disseram que eram espancados, além de sofreram agressões com choques elétricos e spray de pimenta. (g1)