Dólar dispara, Bolsa despenca, acionando vários ‘circuit breakers’

Política

Os mercados financeiros reagem, nesta segunda-feira, à inesperada vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições do domingo contra o senador Flávio Bolsonaro, o candidato de direita preferido pela maior parte dos analistas. O dólar comercial abriu em forte alta, de 8,65%, a R$ 5,42. As negociações foram interrompidas e, quando foram reabertas, pouco antes das 10h, o dólar chegou a R$ 5,60, alta de 12,2%. Depois de nova interrupção, o dólar voltou a ser negociado nas máximas de R$ 5,60 e, de novo, os negócios foram suspensos.

Pouco antes das 11h, os negócios foram reabertos com o dólar subindo 10,78%, a R$ 5,53. No auge, a alta de 12% na cotação de venda do dólar comercial superou até mesmo a variação intradiária do dólar médio (Ptax) em 1999, quando o Brasil abandou o regime de bandas cambiais e passou a adotar o câmbio flutuante. Em 15 de janeiro de 1999, no início da adoção do câmbio flutuante, o dólar subiu 11,10% considerando essa taxa média do dia (Ptax).
As negociações com ações da Bolsa de Valores de São Paulo também foram interrompidas após o Ibovespa, principal índice, cair mais de 10%. Depois dos negócios serem retomados, a Bolsa afundou a queda, para 17%.
Essa disparada do dólar e a queda forte da Bolsa acionaram o mecanismo conhecido como circuit breaker, usado nos mercados financeiros e que paralisa as negociações em momento de variações muito bruscas para dar tempo para os investidores reverem seus planejamentos.

Diante da forte volatilidade dos juros futuros, cujas negociações também chegaram a ter circuit breaker o Tesouro Nacional anunciou intervenção no mercado de títulos públicos. Ao todo, o Tesouro recomprou R$ 7,067 bilhões em títulos prefixados (NTN-F). Após o leilão do Tesouro, as taxas de juros nos contratos privados recuaram.
Em outra frente, o Banco Central atuou no câmbio, em leilões de swap cambial, numa operação que, na prática, injetou US$ 3,75 bilhões no mercado futuro de dólares. Depois da atuação do BC, a alta do dólar perdeu fôlego e, por volta das 12h30, a moeda americana era cotada a R$ 5,4135, em alta de 8,42%.

Na sexta-feira, antes do segundo turno, o dólar comercial fechou a R$ 4,99.
Simon Quijano-Evans, estrategista sênior para mercados emergentes da Macro Hive, espera que o real se recupere gradualmente após esse estresse inicial. Ele cita as restrições à capacidade de Lula de implementar uma política fiscal significativamente mais expansionista, os elevados juros reais no Brasil e o amplo diferencial de juros em relação aos Estados Unidos, além da expectativa de que o Banco Central mantenha uma postura cautelosa.
Analistas avaliam que, após o estresse dos primeiros dias, o mercado tende a acompanhar as decisões de governo do Lula para avaliar o potencial de médio e longo prazo para Bolsa e dólar:
“Mesmo com esse pessimismo prevalecendo a curto prazo, é preciso observar como as pautas econômicas vão avançar no médio prazo. Após a eleição de 2022, houve um certo pessimismo com o retorno de Lula. Mas 2023 foi positivo para a Bolsa após a aprovação do novo arcabouço fiscal. O projeto foi aprovado, o ânimo melhorou e, depois, a Bolsa foi bem. Por isso, precisamos acompanhar como o governo vai se organizar para 2027. Esse é o ponto para o qual mais chamamos atenção”, escreveu, em relatório Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research.

Relatório do banco americano Goldman Sachs, assinado pelos economistas Alberto Ramos e Panteleymon Semka, destaca que Lula terá de governar com um Congresso de maioria conservadora e, ainda, que o presidente terá capital político será limitado, uma vez que não poderá disputar a reeleição em 2030.
Por isso, afirmam, após um esperado ajuste significativo dos preços nesta segunda-feira, “a direção dos mercados dependerá provavelmente das declarações sobre a política econômica” e também sobre as escolhas para o ministério, sobretudo quem será o titular da Fazenda e “de uma apresentação mais precisa da estratégia de consolidação fiscal para os próximos quatro anos”.
“Também será essencial divulgar um levantamento detalhado e transparente do custo fiscal das medidas e promessas de campanha, bem como das revisões e dos ajustes necessários no Orçamento de 2027”.
Dia de fortes ajustes

Após o fechamento das urnas, mesas de operação de grandes bancos e corretoras se preparam para um dia de fortes ajustes na Bolsa e no câmbio nesta segunda-feira.
A corretora Monte Bravo havia estimado que o Ibovespa poderia despencar 11% na primeira hora de negociação em caso de vitória de Lula. Em uma pesquisa do Citigroup com 73 investidores, publicada na sexta-feira, a maioria esperava que esse resultado levasse a uma queda de pelo menos 5% do real, com as taxas de swap subindo mais de um ponto percentual, à medida que operadores desmontassem as apostas em cortes de juros que haviam acumulado após Flávio Bolsonaro superar Lula no primeiro turno, no início deste mês.
— Vai ser um dia duro. O mercado vai reprecificar tudo o que foi prometido — disse Bruno Funchal, CEO da Bradesco Asset Management, que administra R$ 1,1 trilhão em ativos. — Todo mundo foi pego de surpresa. Todo mundo está tentando entender.
Lula, que na visão dos mercados dificilmente promoverá a austeridade fiscal de que o Brasil precisa para reduzir os juros, obteve 51,79% dos votos no segundo turno. Flávio teve 48,21%.

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