Dupla viola túmulo e queima corpo para ‘ritual religioso’ no RS; viúva em estado de choque

Região

Novo Hamburgo – Estão praticando crimes bizarros em nome da fé. A Polícia Civil apurou que a invasão de túmulo e queima de cadáver no Cemitério Municipal Willy Martin, em Novo Hamburgo, no último dia 13, foi para um ritual religioso. A suspeita é que o caso pode estar associado a outras violações de sepultura na região metropolitana. As informações são dos próprios autores, que confessaram ter ido ao local para um “trabalho”. São dois hamburguenses – uma mãe de santo de 44 anos e um aprendiz de 19. No entanto, um joga a culpa no outro, alegando que foi sem saber que a cerimônia envolveria profanação de morto. O corpo é de um homem de 82 anos que havia sido enterrado há menos de dois meses.

Os dois foram identificados semana passada, mas falta ouvir testemunhas para a conclusão do inquérito. Devem ser indiciados por três crimes – violar ou profanar sepultura; destruir, subtrair ou ocultar cadáver ou parte dele e vilipendiar cadáver ou suas cinzas. Cada um pode pegar pena de três a nove anos de reclusão e multa. Segundo o supervisor da 1ª Delegacia de Polícia de Novo Hamburgo, inspetor Jorge Luz, o ritual seria para a mãe de santo “amarrar” um homem pretendido e a escolha do túmulo teria sido aleatória. A sepultura, porém, teria que ser de “cadáver com carne”.

“Ação maligna”

Um imputa ao outro a abertura e queima do sepulcro, o que não altera, segundo Luz, a definição de autoria. “Os dois estavam lá, conforme comprovado em imagens e no que eles próprios dizem. Não podem sair profanando túmulos e atingir o sentimento de famílias a pretexto de sucesso no amor, trabalho, finanças.” Os investigados contaram detalhes excêntricos, como a descrição da mulher sobre uma “incorporação maligna” no jovem, que a teria proibido de mencionar a palavra “Deus”. Nenhum, entretanto, soube explicar a origem da ossada humana deixada em sacola plástica perto do jazigo incendiado.

Segundo Luz, os depoimentos fazem menção a um grupo que estaria cometendo crimes parecidos na região metropolitana. “A mãe de santo declara que o rapaz acompanha um pessoal suspeito de violar túmulos entre Porto Alegre e o Vale do Sinos, enquanto ele atribui à mulher outros rituais em cemitérios. Isso tudo será apurado.” Será verificada relação com atos em cidades como Gravataí, Sapucaia do Sul e Esteio.

Viúva em choque

O idoso, calçadista aposentado de Novo Hamburgo, foi enterrado em 19 de novembro no jazigo comprado para a mãe há 11 anos. “Ele sempre dizia que, quando morresse, queria ser sepultado em cima da minha sogra”, comenta a viúva, de 76 anos, apavorada com o que foi feito no túmulo. “Estou em choque.”

Coveiro há 29 anos no cemitério municipal, o servidor Leandro Batista Henz, 54, lembra com perplexidade do fato. “Toda semana tem desses rituais aqui, mas com sepultura queimada eu nunca tinha visto.” A destruição foi percebida na manhã seguinte pela parente de pessoa que seria enterrada quase ao lado. “Ela foi correndo contar ao meu colega. Tivemos que tapar o túmulo com uma lona porque ainda saía muita fumaça e haveria uma cerimônia perto.” Henz conta que, no mesmo dia, o jazigo foi consertado com a cimentação de novas lajes.

Trapalhada macabra

O jovem, com uma saia preta de pomba-gira, chega ao lado da mãe de santo ao cemitério, por volta das 23 horas. Eles rodam fileiras de túmulos até escolher um. Uma laje da sepultura é aberta e pólvora é espalhada pelo caixão. Garrafas de cachaça e espumante, bolinhos de carne, velas e outros adereços ritualísticos são posicionados no entorno. Às 23h32, uma câmera capta, ao fundo, o incêndio. As chamas atingem dez metros de altura. Só sobram os ossos carbonizados do idoso sepultado. A dupla corre até o carro – onde a filha da religiosa espera ao volante – e vai embora sem concluir o ritual.

Não ficou claro se a queima foi proposital, mas o certo é que os dois não esperavam o resultado. O jovem ficou com o rosto chamuscado. (Jornal NH)