A gasolina brasileira mal passou a ter 32% de etanol e o governo brasileiro já prepara um próximo passo: testar a nova gasolina E35, uma mistura com 35% do biocombustível. A chamada E35 não está aprovada para chegar aos postos. Ela será submetida a uma nova bateria de ensaios para saber o que acontece com consumo, emissões e durabilidade de motores e componentes após uso prolongado.
A Lei do Combustível do Futuro permite elevar a participação de etanol anidro em até 35%, mas exige comprovação prévia de viabilidade técnica. Depois dos estudos, caberá ao CNPE (Conselho Nacional de Política Energética) decidir se aumenta novamente o percentual.
Hoje a nova gasolina comum e aditivada vendidas no país têm 32% de etanol. A E32 entrou em vigor em 1º de agosto em caráter excepcional e temporário por 180 dias, prorrogáveis pelo mesmo período. A gasolina premium continua com 25%.
O que ficou sem resposta no E32
Ao analisar a decisão que levou o governo a elevar temporariamente a mistura de E30 para E32, o TCU (Tribunal de Contas da União) registrou que testes usados como base não incluíram ensaios de consumo e emissões feitos com E32, e essas avaliações haviam sido realizadas com E30.
Também ficaram fora testes de longo prazo de durabilidade, corrosão e compatibilidade de materiais. Segundo o TCU, governo e representantes dos setores automotivo e de autopeças tinham conhecimento dessas limitações e decidiram deixar esses ensaios para a etapa destinada a misturas com 35% ou mais de etanol.
Parte do que o governo agora pretende descobrir com a nova gasolina E35 é aquilo que não foi medido antes de a gasolina E32 começar a ser vendida. Isso não levou o TCU a barrar a nova gasolina.
O tribunal considerou que havia estudos suficientes para sustentar a adoção temporária da E32 e destacou que a medida pode ser revertida caso surjam problemas durante o monitoramento.
Durabilidade com a nova gasolina E35 deve ganhar mais peso
A preocupação com o efeito acumulado de mais etanol com a nova gasolina E35 não é nova. O engenheiro Erwin Franieck, conselheiro da SAE Brasil, já chamou atenção para sistemas modernos de injeção direta.
Ele explica que nesses motores, o combustível não participa apenas da combustão e também ajuda na lubrificação de componentes submetidos a pressões muito elevadas, como bomba e injetores.
“Com certeza impacta a vida útil desses componentes. O quanto isso significa, só testando”, explica. A nova rodada pode começar a responder justamente essa pergunta.
Já no caso da E32, Franieck também estimava um pequeno aumento de consumo em relação à E30. Quanto maior a participação de etanol, menor tende a ser a quantidade de energia disponível em cada litro da mistura.
Isso ocorre porque o etanol tem conteúdo energético inferior ao da gasolina. O engenheiro Gerson Borini, com mais de 30 anos de experiência na indústria automotiva, explicou à coluna que a maior presença de etanol reduz a quantidade de energia entregue por cada litro da mistura.
“Nesse sentido, a gasolina piorou. Agora, como a gasolina tem mais álcool, você precisa de um volume maior dessa mistura E32 para ter a mesma energia do que precisava antes com E30 ou E27”, afirmou.
Com mais etanol, é necessário queimar um volume um pouco maior da mistura para produzir a mesma quantidade de energia. A passagem de 32% para 35% com a nova gasolina E35 será mais um degrau nessa direção.
Mais etanol deixou a gasolina mais barata?
Em tese, aumentar a parcela de etanol com a nova gasolina E35 pode reduzir o custo da mistura, já que o biocombustível costuma custar menos que a gasolina pura. Na bomba, porém, esse efeito não apareceu nas últimas mudanças.
Antes da entrada da E32, a gasolina comum custava, em média, R$ 6,55 por litro no país. Na primeira semana de agosto, já com a nova composição chegando aos postos, a média continuava nos mesmos R$ 6,55. Na semana de 6 a 12 de setembro, estava em R$ 6,53.
Até agora, a mudança de E30 para E32 foi acompanhada por uma redução de apenas dois centavos no preço médio nacional. E nem essa diferença pode ser atribuída ao maior teor de etanol, já que petróleo, câmbio, impostos, custos de distribuição e margens dos postos também interferem no valor final.
Na semana de 20 a 26 de julho de 2025, antes da entrada da nova mistura, o litro da gasolina comum custava em média R$ 6,20 no país. Na primeira semana de agosto, já durante a transição para a E30, a média era de R$ 6,19. No fim daquele mês, estava em R$ 6,17.
O governo estimava na época que o aumento da mistura poderia reduzir o preço da gasolina em até R$ 0,11 por litro. Essa queda não apareceu na média nacional dos postos.
Carro flex é a menor preocupação
Para veículos flex, o aumento da gasolina E35 tende a ser menos crítico do ponto de vista de funcionamento do motor, já que esses carros foram desenvolvidos para operar inclusive com etanol hidratado, que tem concentração muito maior do biocombustível.
As maiores dúvidas ficam nos veículos movidos exclusivamente a gasolina, sobretudo os mais antigos, importados e aqueles com determinadas tecnologias de injeção.
Nos testes que serviram de base para as misturas anteriores, o Instituto Mauá de Tecnologia avaliou 16 carros e 13 motocicletas não flex, de diferentes anos de fabricação e gerações tecnológicas.
Na ocasião, Renato Romio, chefe da divisão de motores do instituto, disse à coluna que não foram observadas diferenças relevantes entre os combustíveis avaliados em desempenho, emissões ou funcionamento. “Os carros testados tiveram desempenho semelhante com ambas as misturas”, afirmou.
Já Borini questionou à época se ensaios relativamente curtos seriam suficientes para identificar desgaste que só apareceria depois de dezenas de milhares de quilômetros. Agora, esse ponto tende a assumir papel central nos estudos da nova gasolina E35.
O que exatamente será testado
O Ministério de Minas e Energia reuniu ANP, Anfavea, Abraciclo, Sindipeças, fabricantes de componentes, setor de combustíveis e instituições de pesquisa para discutir quais veículos precisam representar a frota com a nova gasolina E35 e quais condições são necessárias para garantir repetibilidade e confiabilidade dos resultados.
Entre os pontos que vêm sendo discutidos sobre a nova gasolina E35 estão desempenho, dirigibilidade, consumo, emissões, partida a frio e compatibilidade entre combustível e diferentes tecnologias automotivas.
Durabilidade, corrosão e comportamento de materiais ganham agora importância especial justamente por terem ficado de fora da avaliação de longo prazo usada na adoção da E32.
Ainda não foram divulgados oficialmente detalhes como quantidade final de veículos, modelos escolhidos, quilometragem que será percorrida ou duração dos ensaios da nova gasolina E35. Esses números serão fundamentais para saber até que ponto os testes conseguirão reproduzir anos de uso de um automóvel brasileiro. (ND+)





