O engenheiro Paulo Vieira de Souza, conhecido nacionalmente como Paulo Preto, teve sua pena reduzida de 145 anos e oito meses para apenas cinco anos e 11 meses, em decisão que marca a derrocada das punições da Lava Jato e a fragilidade do sistema judicial brasileiro diante de réus poderosos.
Ex-diretor da Desenvolvimento Rodoviário S.A. (Dersa) e apontado pelo Ministério Público Federal (MPF) como operador do PSDB em São Paulo, Paulo Preto foi acusado de desviar R$ 7,7 milhões de verbas públicas destinadas a famílias removidas para a construção do Rodoanel, uma das obras mais emblemáticas do governo tucano.
Mesmo condenado em 2019 por peculato, associação criminosa e inserção de dados falsos em sistema público, o ex-diretor viu a pena ser praticamente aniquilada após uma sequência de anulações, prescrições e recursos que o mantêm livre desde 2020.
A queda da maior condenação da Lava Jato
A sentença original, proferida pela juíza Maria Isabel do Prado, fixava uma pena recorde de 145 anos e oito meses de prisão, a maior da história da operação Lava Jato.
No entanto, a punição foi derrubada pelo ministro Reynaldo Soares da Fonseca, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que anulou a decisão e determinou o retorno do processo à fase de alegações finais.
Com o crime de organização criminosa prescrito e novos cálculos de pena, o Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3) acabou reduzindo a condenação para apenas cinco anos e 11 meses em regime semiaberto, considerando apenas o crime de peculato, o desvio de dinheiro público.
O resultado, na prática, transforma o maior símbolo de corrupção tucana em mais um personagem beneficiado pela leniência processual, em um país onde penas longas servem mais para manchetes do que para prisões reais.
O esquema: babás, domésticas e laranjas
De acordo com a denúncia do MPF, Paulo Preto usou funcionários domésticos e familiares como laranjas para embolsar o dinheiro de indenizações do Rodoanel.
Seis mulheres ligadas ao engenheiro, três babás, duas domésticas e uma funcionária da empresa do genro, foram incluídas indevidamente na lista de beneficiários.
Além disso, o ex-diretor da Dersa ficou com parte do dinheiro que deveria ir para outras 11 pessoas associadas a uma ex-funcionária da empresa, que posteriormente fez delação premiada.
O MPF também apontou que Paulo Preto autorizou indenizações fraudulentas a 1.773 famílias que nunca moraram nas áreas atingidas pelo prolongamento da Avenida Jacu-Pêssego, na zona leste de São Paulo, um golpe estimado em R$ 6,3 milhões.
De símbolo da corrupção a retrato da impunidade
A defesa do engenheiro, agora, prepara um novo pedido de prescrição total do crime, o que pode, na prática, enterrar de vez uma das ações mais emblemáticas contra a corrupção tucana no Estado.
O caso Paulo Preto é mais do que um escândalo jurídico: é a representação viva da impunidade seletiva. Enquanto políticos e empresários de alto escalão continuam a escapar ilesos, as investigações da Lava Jato, que já foram vistas como divisor de águas no combate à corrupção, se transformam em exemplo de fragilidade institucional e retrocesso judicial.
Com 70 anos completados recentemente, Paulo Preto hoje vive em liberdade, blindado pelo tempo, pela burocracia e por uma justiça que, mais uma vez, falhou em fazer o crime do colarinho branco pagar o preço que deve.


