Na semana passada, Arlene Vilela se tornou a segunda mulher a chegar ao posto de coronel da Polícia Militar de Santa Catarina. A oficial, atualmente lotada no 12º CRPM (Comando Regional de Polícia Militar), entrou na PM como praça em 1992.
Na época, a PM tinha um quadro separado para as policiais femininas. Ela participou do pelotão feminino do 4º BPM (Batalhão de Polícia Militar), em Florianópolis. Ao realizar o concurso para oficial em 1993, ela entrou na Academia de Polícia Militar da Trindade, onde realizou o Curso de Formação de Oficiais nos quatro anos seguintes.
“Para oficiais femininas, o concurso abria a cada cinco anos. Eu disputei uma das três vagas disponíveis. Depois de quatro anos, fui para o 2º Batalhão, em Chapecó, como aspirante. Lá, eu formei o 7º Pelotão de Polícia Feminina e consegui uma transferência para Joinville em novembro de 1997”, lembra.
A transferência para o 8º Batalhão de Polícia Militar se deu por um motivo especial. O marido de Arlene trabalhava na Weg e isso incentivou a vinda dela para a região. Ela trocou de lugar com uma policial militar que era da região de Chapecó, pois Joinville era o local mais próximo de Jaraguá do Sul.
Em 1999, Arlene veio para a 3ª Companhia do 8º BPM, onde é hoje o 14º Batalhão de Polícia Militar. A oficial destaca que a primeira impressão de Jaraguá do Sul não poderia ser melhor. A tranquilidade e a organização da cidade a fizeram ter um gosto especial pelo município e escolher o local para formar a família.
“Eu sou de Florianópolis, fui para Chapecó e depois para Joinville. Mas Jaraguá do Sul tem uma organização muito grande. Quando eu vim para cá, foi implantada a filosofia de polícia comunitária. Eu havia montado o Clic (Conselho de Líderes Comunitários) no Centro de Joinville, onde eu comandava a base. Aqui, eu recebi a missão de montar os 12 Consegs (Conselhos Comunitários de Segurança)”, conta.
“Me chamou a atenção de como a cidade era organizada, com as suas associações de moradores. Eu participei das reuniões e vi que a participação popular era muito forte. Isso facilitou muito, porque a própria filosofia fala que um ambiente organizado, em uma sociedade organizada, fazer a implantação fica mais fácil. Eu não tive que começar tudo do zero e eu achei fantástico. Conheci muitas pessoas e fui muito bem recebida em Jaraguá do Sul”, completa.
Segurança
Atualmente, a participação da população na segurança é um dos pilares do trabalho que reflete nos baixos índices de criminalidade do município. Os Consegs foram a semente para a formação de outras redes de proteção, como a Rede de Vizinhos e Rede Comércio Seguro. “Essa filosofia prega que o trabalho da polícia precisa ser integrado com a comunidade para melhorar os indicadores”, explica.
Com as informações da população, a Polícia Militar passou a decidir melhor onde empregar o policialmente. A coronel destaca a população também passou a ver que cidade sempre teve uma dificuldade no efetivo e passou a ajudar a PM.
“Eu lembro que uma vez no bairro Rau, onde foi o primeiro Conseg que eu criei, tinha um problema com o estacionamento. Os próprios moradores que estacionavam os veículos acabaram percebendo que tinham repensar como estacionar ao invés de chamar a polícia. A Ilha da Figueira estava atrás apenas do Centro nos indicadores de acidentes de trânsito. Com a implantação do Conseg, o bairro passou para sexto em um ano. A organização da comunidade acabou melhorando os índices”, ressalta.
Arlene esclarece que todas as redes de proteção são ferramentas da estratégia de polícia comunitária. Ela compara essa filosofia com a adoção de hábitos saudáveis. Exercícios físicos e uma boa alimentação são equivalentes com a Rede de Vizinhos ou a Rede Comércio Seguro.
“Com a tecnologia, essas ferramentas surgiram para melhorar o processo. Trazer a sociedade para pensar a segurança muda tudo. Por que Jaraguá do Sul é segura? Muitos dizem que é a colonização. Porém, existem outras cidades com a mesma colonização de Jaraguá do Sul e não têm os mesmos índices. Ah, mas então o que é? É essa participação da comunidade, de ligar, de ser crítico. A comunidade ajuda, mas também cobra. Esse é o principal diferencial daqui”, pondera.
Topo da carreira
As filhas da oficial nasceram em Jaraguá do Sul, mas em 2010 a família se mudou para Florianópolis. Na Capital, ela fez pedagogia e atuou nos cursos de formação na Academia de Polícia Militar da Trindade. Após sete anos, ela retornou para a cidade com a criação do 12º Comando Regional de Polícia Militar, onde integra o Estado-Maior da unidade.
Atualmente, a oficial é única mulher entre os 36 coronéis da ativa. Em um meio dominado por homens, ela se destaca e frisa que não chegou sozinha no topo da carreira da Polícia Militar. Outras oficiais acabaram pavimentando a estrada para esse momento de Arlene na PM.
“Em todas profissões existem pioneiros, alguém que foi na frente. Outras oficiais passaram pela Polícia Militar e abriram esse caminho. Lógico que com o tempo esse caminho ficou mais fácil e vai chegando o momento em que a presença da mulher nesses ambientes já está construído”, reitera.
Para a coronel Arlene, a caminhada não é simples, porque é precisa o tempo todo aprender e, ao mesmo tempo, estar com a família. “Tem todo o peso social do lugar da mulher na família. Mas, com um marido que apoia, a gente vê que dá para continuar essa caminhada. Lógico que há dificuldades, mas eu me sinto recompensada. Não foi fácil, mas o esforço culminou na recompensa. Isso é o mais bacana de estar neste momento. Estou colaborando com uma construção histórica para chegar nesse lugar e conquistar a terceira estrela. Tive que abrir mão de muita coisa para chegar aqui, mas valeu a pena”, finaliza. (Fonte: OCP)



