A Organização Mundial da Saúde (OMS) vem alertando para o crescente número de cesarianas no Brasil, que hoje ultrapassa metade dos nascimentos. Segundo a Organização, a cesariana é uma intervenção efetiva para salvar a vida de mães e bebês apenas quando indicada por motivos clínicos, ou seja, em situações específicas. A OMS recomenda que a taxa de cesarianas de países ou serviços de saúde não ultrapassasse 15%, pois taxas maiores não seriam justificadas sob o ponto de vista clínico e não implicariam em melhores condições de saúde materna ou neonatal. Ao contrário, diversos estudos apontam que a cesárea, sobretudo quando feita nos casos em que não é necessária, está associada à consequências negativas sobre a saúde materna e infantil, além de apresentar custos maiores ao sistema de saúde.
A variação das taxas de cesarianas é influenciada por diversos fatores, entre eles, a fonte de financiamento da assistência ao nascimento. Para compreender melhor essa influência, as pesquisadoras Bruna Dias Alonso e Flora Maria Barbosa da Silva, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade Estadual de São Paulo (USP), investigaram os fatores socioeconômicos, demográficos, clínicos e obstétricos associados à cesariana entre mulheres atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e pelo Setor de Saúde Suplementar (SSS) da região Sudeste do Brasil.
As pesquisadoras analisaram os dados de um estudo chamado “Nascer no Brasil: inquérito nacional sobre parto e nascimento”, com objetivo de identificar os fatores que levaram a realização de cesarianas. Foram utilizados somente os dados de 9.828 mulheres que tiveram seus bebês em hospitais da região Sudeste, entre fevereiro de 2011 e julho de 2012. A região foi escolhida porque compreende 40% da população brasileira, concentra a economia mais rica do país e possui grande parcela da população atendida pelo SSS.
As mulheres selecionadas foram divididas em dois grupos: as que tiveram seus bebês em hospitais do SUS e em hospitais do setor privado. Para cada grupo, foi possível calcular as chances de se ter uma cesariana de acordo com características socioeconômicas, demográficas, clínicas e obstétricas das parturientes, tais como: idade, cor da pele, escolaridade, situação conjugal, trabalho remunerado, classe econômica, localização do hospital onde o bebê nasceu, caso de cesárea anterior, problemas de saúde na gestação ou no trabalho de parto.
A cesariana foi mais frequente entre as mulheres atendidas pelo SSS do que pelo SUS. A cada 100 mulheres, 84 passaram por cesariana no setor privado, enquanto no SUS esse número foi menor: 45. No SUS, as mulheres com 35 anos ou mais, com trabalho remunerado e melhor escolaridade foram as mais submetidas à cesariana. Em contraposição, esses fatores não influenciaram a via de nascimento (cesariana ou parto normal) no SSS, no qual a fonte de financiamento da assistência à saúde foi determinante para a realização de um grande número de cesarianas desnecessárias.
É urgente regularizar a prática obstétrica, em especial no SSS, uma vez que esse é responsável pela atenção ao nascimento de uma parcela expressiva da população da região Sudeste. Também é necessário investigar a motivação que levou mulheres com melhores condições socioeconômicas optarem pela cesariana ou serem submetidas a ela no SUS. Mudanças estruturais nos serviços de saúde, independente da forma de financiamento e maior informação das mulheres e suas famílias sobre as consequências da forma de nascimento a curto e longo prazo são fundamentais para incentivar a escolha informada e mais adequada em relação à atenção ao parto.
Parto e nascimento são eventos transformadores na vida mulheres e bebês e, na maioria das vezes, não apresentam riscos. A pesquisa “Nascer no Brasil: Inquérito Nacional sobre Parto e Nascimento” foi coordenada pela Fundação Oswaldo Cruz e realizada com a participação de renomados pesquisadores de um grande número de instituições científicas do Brasil. Teve como objetivo conhecer os determinantes, a magnitude e os efeitos das intervenções obstétricas no parto, incluindo as cesarianas desnecessárias; descrever a motivação das mulheres para opção pelo tipo de parto; as complicações médicas durante o puerpério e período neonatal; bem como descrever a estrutura dos hospitais quanto à qualificação dos recursos humanos, disponibilidade de equipamentos, medicamentos e unidade de terapia intensiva (UTI) para adultos e neonatos.
Pesquisador(es) Responsável(eis)
Bruna Dias Alonso – Flora Maria Barbosa da SilvaInstituição(ões)
Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP)






