SC registra 35 feminicídios em 2026 e especialistas alertam para sinais antes da violência

Plantão

O debate em torno do aumento no número de casos de feminicídio tem mobilizado autoridades policiais, juristas e profissionais da saúde mental na busca por respostas e estratégias de prevenção. O avanço das estatísticas levanta questionamentos sobre se o cenário atual reflete uma escalada real da violência de gênero ou se decorre do aumento da visibilidade e da criação de mecanismos legais que permitem identificar e tipificar o crime com maior precisão.

Na última semana, o corpo da jovem Joviana Evelyn Iankovski, de 19 anos, foi localizado em Sangão. Ela foi morta pelo namorado e passou a integrar uma estatística alarmante: Santa Catarina já soma 35 casos de feminicídio nos primeiros oito meses de 2026.

Em entrevista á radio Som Maior, a titular da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher de Criciúma, delegada Ana Elisa Vargas de Souza, ressaltou a importância de analisar os dados estatísticos com cautela, considerando fatores como a evolução legislativa e a demografia.

Joviana Evelyn Iankovsky, de 19 anos, foi encontrada morta em uma residência em Sangão | Foto: Reprodução/Redes Sociais

“Quando se fala em números, a gente precisa ter bastante cuidado com isso, justamente porque hoje em dia existe mais informação do que há algum tempo atrás. Inclusive, há algum tempo atrás sequer se falava em feminicídio, porque não era um crime específico. Além disso, tem também a questão do crescimento da população, que acaba influenciando diretamente nos números”, afirmou a delegada.

Santa Catarina registrou 35 casos confirmados

Segundo a delegada, o estado de Santa Catarina registrou 35 casos confirmados entre janeiro e agosto de 2026.  Apesar dos números preocupantes, a delegada destaca que a Polícia Civil mantém um índice alto na resolução de autoria desses crimes.

“A Polícia Civil de Santa Catarina, ela tem 100% de resolução dos casos, e isso é fundamental para que haja uma investigação, que haja a responsabilização destes agressores.”

No entanto, Ana Elisa destaca que a solução investigativa precisa vir acompanhada de ações preventivas para evitar que os homicídios ocorram.

Construção histórica e mudanças legislativas 

Ao analisar a trajetória social da violência contra as mulheres, a advogada Vânia Rodrigues, representante da Comissão de Combate à Violência Contra a Mulher da OAB Criciúma, explicou que desigualdade de gênero possui raízes culturais e institucionais consolidadas ao longo de séculos.

“O feminicídio, na verdade, ele sempre existiu. Essa questão do patriarcado não é uma coisa natural; é uma coisa que foi imposta, é cultural, e a gente precisa de uma mudança de comportamento”, apontou

A advogada relembrou marcos do jurídico brasileiro que apontam a discriminação de gênero no passado, como o crime de adultério mantido na legislação por 115 anos até ser revogado em 2005  e o uso da tese da “legítima defesa da honra” para justificar assassinatos promovidos por parceiros.

“O próprio Estado deu legitimidade para esses homens matarem as suas mulheres. Apenas em 2023 o Supremo Tribunal Federal proibiu o uso do termo ‘legítima defesa da honra’ em julgamentos, impedindo que se continue ofendendo a honra da vítima para defender o agressor”, conta.

A jurista ressalta que o reconhecimento pleno da mulher como sujeito autônomo de direitos consolidou-se apenas na Constituição Federal de 1988, exigindo hoje um esforço contínuo de conscientização que alcance escolas, adolescentes e a sociedade civil para transformar comportamentos enraizados.

Os sinais sutis e o ciclo da violência

Sob a perspectiva comportamental, o psicólogo policial Ronaldo Borges, atuante na Delegacia de Atendimento à Mulher de Criciúma, destacou que a violência doméstica costuma se manifestar de maneira progressiva, dificultando a percepção precoce por parte das próprias vítimas.

“Nos meus atendimentos na delegacia, quando começo a perguntar sobre as situações, geralmente as mulheres acabam associando a violência apenas à agressão física direta. Mas a violência doméstica começa de forma muito sutil e gradativa”, explicou.

Segundo o Ronaldo, atitudes como controle de roupa, isolamento social de amigos e familiares e ciúmes excessivos são frequentemente romantizados ou desconsiderados nos estágios iniciais do relacionamento.

“A situação da violência doméstica em muitos casos se assemelha à metáfora do sapo na água quente: quando ele percebe a temperatura subir, já é tarde demais. A falta desse conhecimento e dessa identificação inicial dificulta a busca por ajuda externa”, completou.

Complementando a análise, Vânia Rodrigues citou o impacto do chamado “ciclo da violência”, composto pelas fases de aumento da tensão, agressão e posterior reconciliação.  Segundo ela, a dependência emocional somada à dependência financeira constitui o principal fator de aprisionamento das vítimas em relacionamentos abusivos, tornando essencial o apoio de redes de proteção especializadas.

Eficácia e fluxo das medidas protetivas 

Questionada sobre a eficácia e a rapidez na concessão de ordens judiciais de proteção, a delegada Ana Elisa enfatizou que o fluxo de atendimento policial e judiciário tem operado com celeridade para resguardar as mulheres em situação de risco.

“A partir do momento em que a vítima chega à delegacia e faz o requerimento, o pedido é encaminhado imediatamente ao Poder Judiciário, que tem sido bastante célere na concessão das medidas protetivas de urgência”, afirmou

A delegada ressaltou ainda que, nos casos em que a mulher enfrenta risco ou necessita de afastamento do lar antes do deferimento judicial, a Polícia Civil atua de forma integrada com a rede de assistência social, promovendo o encaminhamento para casas de abrigo e garantindo o amparo institucional necessário. (Fonte: 4Oito)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.