GPA pede recuperação extrajudicial com dívida de R$ 4,5 bilhões

Política

Fundado em 1948, o GPA, dono das redes Pão de Açúcar e Extra Mercado, protocolou nesta terça-feira (10) pedido de homologação de recuperação extrajudicial envolvendo a renegociação de dívidas com credores financeiros da ordem de R$ 4,5 bilhões. Quase 40% dos passivos vencem em até 12 meses.

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Até o início da noite de ontem, pelo menos quatro bancos, entre eles o Itaú, principal credor, tinham dado aval ao plano, dizem fontes. As instituições financeiras Rabobank, HSBC e BTG Pactual também estão nesse grupo. O pedido foi protocolado no Tribunal de Justiça de São Paulo.

Segundo fato relevante publicado nesta manhã, o plano com as condições negociadas foi celebrado com credores que representam 46% dos passivos, o equivalente a R$ 2,1 bilhões.

O percentual é superior ao quórum mínimo legal de um terço dos créditos afetados para o ingresso do pedido na Justiça, de acordo com a lei 11.101 de 2005 que rege o tema das recuperações de empresas.

“Agora temos 90 dias para concluir esse acordo com os credores, mas as conversas avançam bem e queremos ter o quórum necessário [50% mais 1] para aprovação do plano em tempo mais curto”, disse ao Valor, o presidente da empresa, Alexandre Santoro.

 

Segundo ele, foi feito um diagnóstico da situação nas últimas semanas, e pelo quadro estrutural da rede, em termos de caixa e dívidas, e pelos vencimentos relevantes com bancos, decidiu-se “dar celeridade à situação de forma mais organizada”, diz.

Ao se analisar o balanço, empréstimos e financiamentos na linha de passivo circulante (curto prazo) somavam R$ 1,7 bilhão ao fim de 2025 e mais R$ 2,4 bilhões no passivo não circulante (longo prazo).

Apenas o montante no passivo circulante, que trata do vencimento em até 12 meses, dobrou, passando de R$ 850 milhões em 2024 para o R$ 1,7 bilhão em 2025.

Santoro diz que o plano abrange pagamentos sem garantia e que não fazem parte as obrigações operacionais da varejista, ficando excluídos acordos junto a fornecedores e parceiros, bem como obrigações trabalhistas.

A empresa tinha em dezembro R$ 3 bilhões em passivos que vencem em 12 meses com fornecedores, mesmo valor de um ano atrás.

Nessas contas, é preciso ainda separar o que são dívidas diretas com bancos e debêntures daquilo que são as contingências da rede.

A negociação atual envolve os credores financeiros, e, segundo Pedro Albuquerque, novo vice-presidente de finanças, os contatos com debenturistas devem ocorrer num segundo momento. “Vamos abrir essas conversas também, é que parte dos bancos já são debenturistas, então isso anda em paralelo” diz ele. As debêntures que vão vencer neste ano somam R$ 1,7 bilhão, com vencimento em maio e julho.

Já as contingências fiscais e trabalhistas, algo comum no varejo, foram sendo carregadas ao longo dos tempos pela varejista, e a parcela do total tem sido cobrada pelos Estados e pela União.

A empresa abriu acordos com alguns Estados, com descontos sendo negociados, mas a soma total atinge cerca de R$ 17 bilhões — isso também não faz parte da recuperação extrajudicial.

Profecia autorrealizável

 

O plano tem efeitos imediatos e prevê a suspensão das obrigações da rede junto aos credores afetados, o que dá uma tranquilidade para a rede. Na prática, a intenção é criar um ambiente seguro e estável para a continuidade das  negociações por 90 dias, diz Santoro.

Sobre esse ponto, a empresa acabou avançando com as tratativas para se proteger de uma “profecia autorrealizável”, na visão de algumas pessoas a par do assunto. “Tudo o que aconteceu nos últimos dias não foi nada bom”, disse a fonte.

“Com a questão do risco da continuidade operacional que veio à tona, [vieram a seguir] o rebaixamento da nota de crédito da Fitch e o temor dos credores e dos fornecedores crescendo”, disse uma fonte.

“Foi preciso deixar claro que a indústria está fora desse problema. Esse cenário todo começou a gerar uma tensão no mercado, e o risco é chegar num ponto que fique difícil de administrar. A empresa decidiu agir antes disso”, disse a fonte.

Segundo informações, houve autorização unânime do conselho de administração para o pedido de recuperação extrajudicial. O colegiado tem entre os seus integrantes membros da família Coelho Diniz, com 24,6% do capital da empresa, e do grupo francês Casino, com 22,5%.

Por mais de uma década, o Casino exerceu o poder de fato na rede, mantendo 40% das ações da empresa após a saída da família Diniz da varejista, em 2012. Era o Casino que acompanhava principalmente os temas de patrimônio e alavancagem da rede e deixava com a administração a parte operacional.

Daqui para frente, essa busca do apoio da maioria dos créditos sujeitos ao processo é para resolver simultaneamente a liquidez de curto prazo e a sustentabilidade financeira de longo prazo.

Com isso, a ideia é melhorar o perfil do endividamento e preservar o relacionamento com fornecedores e, principalmente, proteger a operação, de onde vem o caixa da empresa.

O problema do GPA não é operacional, mas o financeiro. O balanço mostra que a empresa teve um fluxo de caixa operacional de R$ 1,2 bilhão em 2025 (R$ 350 milhões acima de 2024), mas R$ 920 milhões foram consumidos com juros das dívidas, fianças bancárias  e custos com descontos de recebíveis. Esse montante é R$ 325 milhões acima do valor do ano anterior.

O índice de liquidez corrente (dos compromissos de curtíssimo prazo) passou de 0,96 em 31 de dezembro de 2024 para 0,83 em 31 de dezembro de 2025.

Isso significa que, para cada R$ 1 de dívida, a rede tinha R$ 0,83 em recursos para pagá-las — uma piora em relação aos R$ 0,96 de um ano antes. O indicador estava em R$ 1,21 no fim de 2023.

Portanto, o agravamento do quadro de liquidez do GPA não aconteceu em dois ou três trimestres, mas vem de dois anos para cá, pelo menos, porque o grupo foi tendo que pagar muita dívida, e o caixa não sustentou a pressão, pelo que a própria rede diz em seu formulário de referência de 2024.

Dose do remédio

O mercado já considerava possível uma dose de algum remédio duro para o GPA.

No começo da semana passada, quando a ação do GPA chegou a cair mais de 17% na terça-feira, circularam informações no mercado de uma possível renegociação ampla dos passivos, apurou o Valor. Gestores afirmavam que seria difícil sair desse quadro sem um aporte em um volume grande, de até R$ 1 bilhão, ou uma renegociação mais profunda das dívidas.

Segundo fontes, há consenso no conselho de que uma capitalização ajudaria a melhorar consideravelmente a situação da rede, em parte algo que tem apoio
dos bancos credores. Casino e Coelho Diniz estariam discutindo a questão.

Na segunda-feira (2), em relatório da agência Fitch que rebaixou a nota de crédito da rede de “A” para “CCC”, a agência já dizia que, apesar de a empresa ter anunciado plano de revisão de gastos em fevereiro, as iniciativas não seriam suficientes para restabelecer o fluxo de caixa de forma sustentável sem uma redução material da dívida via aporte.

A empresa anunciou detalhes desse plano no dia 25 de fevereiro, com redução de despesas e corte de investimentos pela metade para 2026.

Santoro reforçou ao Valor que a operação é saudável e que a rede está em dia com suas obrigações  junto a fornecedores, clientes e parceiros, os quais estão excluídos e não serão afetados pelo processo de recuperação extrajudicial. “Não temos um único boleto, uma única fatura em atraso”, diz.

O executivo lembra que as lojas continuam funcionando normalmente — são 728 unidades, sendo 187 do Pão de Açúcar, 164 do Extra Mercado, 155 no Mini Extra e 221 lojas do Minuto Pão de Açúcar. Em 2025, o GPA teve receita líquida de R$ 19,1 bilhões, alta de 1,7% frente a 2024.

Valor noticiou no último dia 24 de fevereiro que a empresa disse, em seu material de resultado, que havia incerteza relevante que poderia levantar dúvida significativa sobre a continuidade operacional da companhia.

Essa conclusão tem como base o fato de a empresa apresentar, em 31 de dezembro de 2025, capital circulante líquido negativo de cerca de R$ 1,22 bilhão, decorrente principalmente de empréstimos e debêntures em aberto. Isso quer dizer que os recursos de curto prazo não são suficientes para quitar as obrigações imediatas. (Valor Econômico)