Previsão da inflação cai, mas segue acima do teto e mantém juros altos no radar

Geral

A expectativa para a inflação brasileira voltou a cair, mas o movimento foi bem pequeno. Segundo o Boletim Focus, divulgado nesta segunda-feira (20) pelo Banco Central, o mercado reduziu de 5,16% para 5,15% a projeção do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2026. Foi a terceira queda semanal seguida. O “alívio”, porém, cabe na segunda casa decimal.

Mesmo com a revisão, o índice previsto continua 0,65 ponto percentual acima do teto de 4,5% estabelecido para a meta. O centro é de 3%, com margem de 1,5 ponto para cima ou para baixo. Desde 2025, o sistema considera a inflação acumulada em 12 meses e o descumprimento é caracterizado quando o indicador permanece fora do intervalo durante seis meses consecutivos.

Os números já medidos pelo IBGE ajudam a entender o cuidado. Em junho, o IPCA subiu 0,16%, acumulou 3,36% no ano e chegou a 4,64% em 12 meses. Ou seja, a inflação observada já estava ligeiramente acima do limite superior, embora ainda bem abaixo dos 5,15% esperados para dezembro. Os dados são do IBGE.

Tem outro detalhe escondido no levantamento. Quando são consideradas apenas as 50 projeções atualizadas nos cinco dias úteis mais recentes, a mediana subiu de 5,10% para 5,17%. Esse recorte costuma reagir mais rapidamente às novidades e mostra que a melhora do número geral ainda não está consolidada.

As projeções oficiais caminham na mesma faixa. O Banco Central estima inflação de 5,2% no fim de 2026, enquanto a Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda trabalha com 5,1%. A Fazenda elevou sua previsão anterior, de 4,5%, citando pressões em serviços, bens industriais e alimentos, além dos efeitos do petróleo e do risco de um El Niño mais intenso no segundo semestre. O cenário consta no Boletim Macrofiscal de julho.

Pouco espaço para baixar os juros

A SELIC está em 14,25% ao ano desde a reunião do Comitê de Política Monetária realizada em junho. O Focus aponta uma taxa de 14% em dezembro. Se essa previsão se confirmar, haverá espaço para apenas mais um corte de 0,25 ponto percentual até o fim do ano. É um ciclo curto. O próprio BC afirma que seguirá com cautela, diante das incertezas e dos riscos de nova pressão sobre os preços.

A próxima reunião do Copom está marcada para os dias 4 e 5 de agosto. Para quem depende de financiamento, cheque especial, parcelamento ou capital de giro, a mensagem não é das mais animadoras. A Selic serve de referência, mas os juros cobrados pelos bancos também incluem risco de inadimplência, despesas administrativas e margem de lucro. Por isso, um corte pequeno não chega inteiro ao consumidor.

Governo e mercado divergem sobre o crescimento

Para o Produto Interno Bruto (PIB), o mercado manteve a previsão de crescimento de 1,99% em 2026. Já o Ministério da Fazenda espera uma alta de 2,3%, diferença de 0,31 ponto percentual. A projeção oficial é sustentada principalmente pela agropecuária e pelos serviços, embora o próprio governo reconheça sinais de desaceleração, perda de força no crédito e aumento da inadimplência.

Para 2027, o Focus aponta expansão de 1,65%. Em 2028, a previsão continua em 2%. A inflação, por sua vez, é estimada em 4,20% no próximo ano. Para 2028, houve piora: a expectativa subiu de 3,70% para 3,78%.

O dólar previsto para dezembro segue em R$ 5,20, sem mudança há cinco semanas. As estimativas são de R$ 5,28 para 2027 e R$ 5,30 para 2028. Na abertura desta segunda-feira, a moeda americana ficou perto de R$ 5,11 e depois recuou para a faixa de R$ 5,09. O petróleo rondava US$ 88, pressionado pelo conflito no Oriente Médio. O mercado cambial começou o dia perto da estabilidade.

A Bolsa também recebeu os números sem grandes solavancos. Por volta das 10h, o Ibovespa avançava cerca de 0,10%, aos 173,8 mil pontos, enquanto os futuros de Nova York operavam em alta. As cotações daquele momento indicavam que o Focus não foi suficiente para mudar o humor do pregão, ainda bastante influenciado pelo petróleo e pelo cenário externo.

O retrato ficou um pouco menos ruim, mas não virou de ponta-cabeça. A inflação projetada cedeu, só que continua acima do teto, e os juros devem terminar o ano quase onde estão.