A segunda testemunha de acusação a falar no julgamento do homem acusado pela morte de três bebês e duas professoras na chacina em uma creche de Saudades, no Oeste catarinense, foi um metalúrgico vizinho da escola de educação infantil.
Ele prestou depoimento no início da tarde desta quarta-feira (9) no Fórum de Pinhalzinho e se emocionou ao olhar para o réu.
O homem contou no tribunal que trabalhava na manhã daquele dia 4 de maio de 2021 quando ouviu gritos vindos da creche. Correu para ver do que se tratava e foi barrado por uma pessoa dizendo que alguém estava matando dentro do educandário.
“Vi uma professora pulando a janela”, revelou. O metalúrgico não pensou duas vezes, e com uma barra de ferro nas mãos para se defender caso fosse agredido, entrou na creche para tentar ajudar.
A testemunha detalhou que se deparou com o acusado com a adaga e uma faca nas mãos. “Ele estava se golpeando no pescoço dizendo: me mata, me mata”, lembrou.
O metalúrgico disse que pediu ao rapaz que não fizesse aquilo e parasse, mas afirmou que o jovem estava lúcido e não esboçava sentimentos. “Ele se golpeou no pescoço e caiu perto da porta e próximo de uma das professoras [vítima]”.
Para evitar novas agressões, a testemunha disse que bateu com a barra de ferro na adaga, jogando-a para longe do rapaz. Apesar de toda a situação, o metalúrgico contou que o acusado parecia tranquilo, não se abalou e não demonstrava dor.
No fim de seu depoimento, a testemunha pediu ao juiz se podia olhar para o réu. Com os olhos voltados para o rapaz, o questionou falando o nome dele [do acusado].
O advogado de defesa interferiu alegando que não poderia haver contato entre eles. A testemunha ficou muito emocionada e precisou ser amparada.
Da mesma forma, a mãe do acusado – sentada próximo de onde o filho está – chorou, abaixou a cabeça e ficou muito emocionada durante os relatos, principalmente quando o metalúrgico revelou que no dia da chacina pediu ao acusado de quem ele era filho.
O dia da chacina
O pacato município de Saudades, distante a 42 km de Chapecó, nunca mais foi o mesmo depois do fatídico 4 de maio de 2021, quando a creche Pró-Infância Aquarela foi alvo do ataque brutal de um jovem de 18 anos.
Armado com uma espécie de espada, o rapaz invadiu a escola de educação infantil e matou três bebês, com idades até 1 ano e 9 meses, uma agente educacional, de 20 anos, e uma professora, de 30. A chacina completou dois anos em maio de 2023 e teve repercussão internacional.
Conforme a Polícia Civil, o jovem — que morava na cidade — dirigiu-se de bicicleta à creche, localizada na área urbana do município. Ao entrar no local, começou a atacar a professora que, embora ferida, correu para uma sala onde estavam quatro crianças e uma funcionária da escola, na tentativa de alertar sobre o perigo.
O rapaz atacou, então, as crianças que estavam na sala e a funcionária. Duas meninas de menos de dois anos e a professora que sofreu o ataque inicial, morreram no local. Outra criança e a funcionária morreram depois no hospital.
Após a chacina, o jovem deu golpes contra si e foi internado. O acusado teve a prisão preventiva decretada no dia 5 de maio de 2021, um dia após o crime, e responde processo por cinco homicídios qualificados, por motivo torpe, cruel e em ação que impossibilitou a defesa das vítimas.
Além disso, é réu por 14 tentativas de homicídio. Ele recebeu alta no dia 12 de maio e foi levado ao Presídio em Chapecó, onde permaneceu preso até a data do júri. Segundo a investigação da Polícia Civil, o jovem planejou o crime e tinha consciência do que estava fazendo quando invadiu a creche.
O delegado Jerônimo Marçal Ferreira, responsável pela investigação do caso, informou, à época da chacina, que o acusado confessou o crime. Marçal ainda disse que a agente educacional e a professora foram heroínas ao impedir que o jovem fosse para outras salas, conseguindo com êxito, mesmo que feridas, evitar o pior.
Durante a investigação, que contou até com o apoio da Embaixada dos Estados Unidos, mais de 20 pessoas foram ouvidas, tendo o próprio acusado prestado depoimento no dia 10 de maio, enquanto ainda estava internado, sob custódia policial, no Hospital Regional do Oeste, em Chapecó. A polícia também apreendeu aparelhos eletrônicos e dispositivos pertencentes ao jovem.
No dia 14 de maio de 2021, os delegados realizaram uma coletiva de imprensa após o fim do inquérito, detalhando, entre outras coisas, que o jovem teria escolhido a creche pela fragilidade das vítimas, que tinha plena consciência do que fez e que foi um crime premeditado durante 10 meses.
Os relatórios dos dados e das informações encontradas nos aparelhos eletrônicos do réu demonstram que, durante o período em que planejou o ataque, ele participou de fóruns de discussão na internet sobre crimes violentos e pesquisou serial killers.
Exame de insanidade mental foi negado
A defesa do acusado pediu exame de insanidade mental, mas a Justiça negou três pedidos nos dias 25 de maio, 23 de junho e 7 de julho de 2021.
No dia 5 de agosto, durante uma audiência online, o juiz decidiu ouvir o jovem presencialmente. No dia 24 do mesmo mês, durante a oitiva do acusado, o advogado de defesa apresentou um laudo particular e o juiz Caio Lemgruber Taborda deferiu o pedido para a realização do exame de insanidade mental, o qual foi realizado pela Polícia Científica de Blumenau.
O laudo foi concluído no dia 19 de outubro de 2021 e o juiz solicitou mais detalhes ao perito. A partir disso, o juiz decidiu no dia 2 de fevereiro de 2022 que a questão da insanidade mental será definida no júri.
No dia 7 de fevereiro a defesa questionou em primeira instância a decisão e pediu um novo exame de insanidade mental. O pedido foi negado. Em 1º de maio a defesa entrou com novo recurso pedindo um novo laudo, a Justiça negou a solicitação no dia 28 de junho.
No dia 11 de outubro, o juiz decidiu que o caso iria para juro popular no dia 9 de agosto. (ND+)





